Por: Rangel Alves da Costa(*)
FRONTEIRA
(O LIMITE ENTRE A VIDA E A MORTE
O que é a
vida? O que é a morte? A vida terrena deixa de existir com a chegada da morte,
mas tudo se resumiria apenas num ser que é e num instante já deixou de ser?
O fim da vida
é o começo da morte, ou haveria uma fronteira, um limite litigioso nessa difícil
linha? No exato ponto dessa linha divisória, onde ainda há vida e também já é
morte, haveria alguma manifestação de ambos os lados?
Quando alguém
afirma que o outro acabou de morrer, poderia também garantir que aquela morte
já estaria consumada, levando-se em consideração que há um ritual de passagem
desse mundo para o outro?
Quando a vida,
através do espírito, deixa o corpo, já teria dado um pulo para chegar ao outro
lado? Ou quando o espírito chega bem em cima da linha fronteiriça já perdeu
toda a essência da vida passada?
Se esse
limite, essa linha fronteiriça, fosse como uma cortina separando a vida e a
morte, e tendo-se ciência do que seja a vida e o que seja a morte, pois cada
uma de um lado, resta a indagação mais importante: o que seria essa cortina,
como ela seria, qual a sua essência?
Mas vida, o
que é a vida? Dizem que é o período ou condição de existência do ser humano,
quando persiste a união da alma com o corpo. É o estado de quem está vivo, é a
força caracterizadora da duração do ser humano, até que a morte o conduza e no
seu lugar permaneça apenas a alma, se for considerada a sua imortalidade.
E a morte, o
que será a morte? Será o fim da vida ou algo separado em si mesmo, como o
estágio de repouso da alma? Dizem apenas que é o ato ou o fato de morrer, o
termo da existência, a cessação definitiva do ser humano enquanto pessoa
corporal. Ou será apenas o outro lado da existência, vez que o existir humano
possui dois lados: a vida e a morte?
Mas por que o
existir humano possui dois lados, sendo um a vida e o outro a morte, quando
muitos impõem uma absoluta separação entre as duas situações? Ora, se a alma e
o espírito continuam presentes tanto numa como noutra situação, então é porque
se manifestam eternamente. Neste sentido, não haveria separação entre a vida e
a morte.
Mas mesmo que
haja separação entre a vida e a morte, o que representa a cortina, a linha
tênue, que separa os dois lados? O que significa, na existência imortal da
alma, estar em cima dessa fronteira, nem para mais um lado nem para o outro,
mas exatamente no ponto onde tudo se mistura e converge?
Difícil
responder tal questionamento, principalmente se for considerado que tudo que
passa de um estágio a outro tem que ultrapassar uma fronteira. E a alma ou o
espírito, que é o próprio corpo oculto ou em estágio imaterial, não tendo olhos
que mirem somente adiante, certamente estará diante, a um só tempo, da vida e
da morte.
Com a
possibilidade de vivenciar ao mesmo tempo essas duas fases – pois no seu limiar
final e inicial -, e considerando que a alma e o espírito se tornam a vida
humana após a morte, então haveria de se considerar também que o que se tem
como corpo humano é apenas uma roupagem usada durante a sua existência.
O ser vestido
despe-se para a morte, mas esta não tem o poder de reclamar de ninguém a
vestimenta. Apenas a força imaterial, presentes na alma e no espírito, pode se
arvorar da condição de verdadeira dona do ser humano. E por ser assim, não há
separação imediata entre a vida e a morte.
Nem no momento
da passagem nem logo depois. Ao deixar de respirar e se posicionar em cima da
fronteira para ultrapassá-la, o espírito ainda estará vivaz dentro do corpo. O
apego ao ser humano é tão grande, que somente quando sentir a necessidade de
cuidar do novo destino é que se estenderá adiante da fronteira. Dará um passo
além do limite, e consigo levará aquele que merecer.
Mas ainda
assim retornará à vida. Onde, aliás, jamais deixou de estar.
(*)Poeta e
cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
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