Por: Rangel Alves da Costa(*)
O TRONCO E A
CAPELA DO ENGENHO
Quase mais
nada resta do grandioso e imponente engenho. As casinholas de barro batido e
cobertas de palha que serviam de senzala foram destroçadas pelos anos; da
casa-grande restou as paredes largas e nuas, descobertas e maltratadas pelo
tempo.
Das outras
instalações do engenho, como a moenda, a casa das caldeiras e das fornalhas e a
casa de purgar, somente os esqueletos ainda se poderiam avistar. Mas tudo
caído, derrubado, destroçado. Não se sabe por que, mas o tronco dos castigos e
punições continuava em pé.
E continuava
no lugar não porque o novo proprietário daquelas terras assim quisesse. Tudo
fazia para retirá-lo dali, utilizando até trator para arrancá-lo de vez.
Contudo, não havia meio que o removesse. Parecia feito de ferro e enraizado de
tal forma que nem se movia quando sacolejado.
Os mais velhos
sabiam por que aquele tronco se negava a sair dali. Não diziam aos visitantes e
citadinos para não ser desacreditados, mas a verdade é que tinham uma
explicação envolta em mistério e dor. Segundo eles, o tronco ali permaneceria
para servir como espelho e lição de um tempo onde gente era mais maltratada que
animais.
Naquele
tronco, negros rebelados eram amarrados e açoitados até a morte para servir de
exemplo aos demais. Muito sangue espanou pela madeira grossa após as chibatadas
dos algozes nos lombos dos rebeldes e fugitivos; muito pedaço de couro se
desprendeu da pele escrava e se alojou na madeira envernizada de sangue. Negro
teimoso tinha de deixar ali um pedaço de sua cor, sua raça, sua
origem. E quanta dor.
O tronco
testemunhou o sofrimento, os gritos de dor, as agonias e aflições. E também o
silêncio das almas agonizantes. E por isso mesmo, ao dificultar cada vez mais
sua remoção, procurava eternizar a memória da escravidão e do seu sofrimento.
Negava-se, pois, a ser removido para que uma página triste da história ficasse
sem seu marco da brutalidade de um dia e fosse esquecida pelas novas gerações.
Daí que petrificava toda vez que tentavam derrubá-lo.
Mas não só o
tronco lutava para continuar como espelho e livro aberto de um tempo tão
sofrido. Um pouco mais afastado dali, quase ao lado dos frangalhos da
casa-grande, a capelinha continuava firme no seu lugar, parecendo mesmo que
nada havia sofrido depois de tantos anos de construção. Porém, era exatamente o
modo como foi construída que a fazia permanecer com a mesma feição de
antigamente.
Capela
pequena, com uma só extensão e um minúsculo quartinho ao fundo para servir de
aposento ao vigário que ali chegasse para celebração de ofício. Um altar de
pedra e meia parede atrás, esta contendo uma espécie de oratório também feito
de pedra. Aliás, tudo ali era de pedra bruta, lavada nos barrancos do riacho
que cortava as terras do senhor de engenho.
Pedras negras,
lisas, cortantes dos lados, verdadeiros punhais na pele de uma pessoa. E dizem
que foram distantemente trazidas, uma a uma, pelos escravos ali cativos. Os
negros seguiam em duplas, acorrentados pelo pé esquerdo, sendo seguidamente
chicoteados pelos feitores e outros algozes a mando do capitão do mato, que
representava a ordenança do senhor.
Cada escravo
trazia uma pedra por vez e ia depositando na parede já cimentada para tal fim.
Assim, enquanto uns negros colocavam massa por cima das pedras, outros já iam
chegando para acomodar cuidadosamente seu carregamento. E as paredes iam sendo
erguidas na pedra praticamente nua, sem qualquer outro material de sustentação.
Mas com um visgo que as tornaria quase indestrutíveis. O cimento do corpo negro
dilacerado.
Contam que em
meio à massa de ajuntamento e às pedras muito sangue negro, também pele e até
pedaços do corpo, ficaram para sempre naquelas paredes. Enquanto trabalhavam,
ali mesmo eram açoitados, feridos e jogados sem vida contra as paredes. E
olhos, dentes, dedos, pedaços disso e daquilo, acabaram ficando ali para
sempre. Colocados, misturados ao pequeno templo cristão.
Dizem que o
sangue escravo ali espargido ou lançado em cuia jamais perdeu sua cor. Por mais
que os feitores ordenassem limpeza mais os restos negros colavam às entranhas,
escondendo-se nas junções das pedras. E foi por isso que durante uma celebração
para a gorducha esposa do senhor, o vigário acabou revelando que também rezava
missa para aquelas almas que avistava saindo das paredes.
E ainda estão
lá. Tanto o tronco como a capelinha continuam no mesmo lugar. O tronco ainda
estremece e geme nas altas horas da noite. E os gemidos só param quando cantos
negros, quase gemidos também, começam a dolentemente entoar dentro da
capelinha. São as almas negras querendo ser ouvidas para que ninguém esqueça
aqueles tempos de dor.
(*) Meu nome é Rangel Alves da Costa, nascido no sertão sergipano do São Francisco, no município de Poço Redondo. Sou formado em Direito pela UFS e advogado inscrito na OAB/SE, da qual fui membro da Comissão de Direitos Humanos. Estudei também História na UFS e Jornalismo pela UNIT, cursos que não cheguei a concluir. Sou autor dos seguintes livros: romances em "Ilha das Flores" e "Evangelho Segundo a Solidão"; crônicas em "Crônicas Sertanejas" e "O Livro das Palavras Tristes"; contos em "Três Contos de Avoar" e "A Solidão e a Árvore e outros contos"; poesias em "Todo Inverso", "Poesia Artesã" e "Já Outono"; e ainda de "Estudos Para Cordel - prosa rimada sobre a vida do cordel", "Da Arte da Sobrevivência no Sertão - Palavras do Velho" e "Poço Redondo - Relatos Sobre o Refúgio do Sol". Outros livros já estão prontos para publicação. Escritório do autor: Av. Carlos Burlamaqui, nº 328, Centro, CEP 49010-660, Aracaju/SE.
Poeta e cronista
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