Por: Rangel Alves
da Costa(*)
Atualmente
estou com cinquenta, mas daqui a cem anos ou mais, muito mais, ainda não terei
morrido completamente. O corpo desfalece, a vida se vai, o último suspiro será
dado um dia, tudo terá um fim, porém apenas corporalmente.
E não terei
morrido completamente porque deixo sementes guardadas nos vasilhames do tempo,
deixo mapas protegidos nas garrafas que ainda não joguei ao mar, deixo letras
rabiscadas em diários que um dia irão encontrar, deixo mensagens de vivacidade
por todo lugar. E principalmente porque não nasci para morrer.
Nasci para a
eternidade porque não me contento em realizar somente para o agora ou o amanhã.
O passo por onde caminho um dia se apagará, mas não o caminho que construí
nesse passo. Não atenderei a quem me chamar pelo nome, mas estarei naquilo que
deixei construído. Quem me chamar me terá por aquilo que fui, pelo que deixei.
Daqui a cem
anos ou mais, muito mais, ainda serei mais jovem, mais fortalecido, mais audaz
do que todo aquele que ainda vai nascer e caminhar sem motivos, sem ter claros
objetivos traçados na vida. Estarei ainda alimentando o que fiz enquanto o
outro passa sem saber o que fazer. E estarei ali na estante, na palavra
escrita, ensinando o caminho. E gritarei que cuidado com a curva da estrada,
com o labirinto escuro.
Darei bom dia,
boa tarde e boa noite, porque todos os dias fui amigo dos dias, das tardes e
das noites. As madrugadas também foram amigueiras Compreendi o calendário, o
relógio, cada segundo. Estarei ao lado de cada um na leitura, na reflexão, no
pensamento bom, nas doces recordações. Eis que na vida vivida nada mais fiz do
que planejar a presença da futura geração ao meu lado quando aqui eu já não
mais estiver.
Não serei
lembrado nos inventários de nada, nos testamentos de coisa nenhuma. Tudo isso
pode ser rasgado. Que se conservem as fotografias e as molduras das
realizações, os traços quase imperceptíveis do meu silencioso agir. Meu olhar e
meu sorriso serão eternos porque sempre olhei e sorri para o amigo com afeto e
sinceridade.
Estarei
presente no nome, no ato, na palavra dita, na realização. Aquela palavra ainda
será minha, aquele pensamento ainda será o meu. A quem duvidar o destino
colocará diante de si um poema, um conto, um artigo, uma crônica, um livro meu.
E logo verá que aquele velho escrito nunca esteve tão presente. E quem
escreveu?
O que escrevo
agora, e tanto e mais tanto do que já escrevi, serão os frutos que alimentarão
minha eternidade, minha imortalidade. Imortal sou, eterno também, sem para
tanto jamais precisar ter vestido fardão e regozijar-me falsamente de ter feito
parte do grupelho conservador, ultrapassado e carcomido das academias. Estes
morrem e são esquecidos. Eu não. Como diz Quintana, eles passarão e eu
passarinho...
Hoje canto o
sol e a lua, dou passo de valsa com a noite e as estrelas, estendo a mão ao
entardecer convidando-o para o bailado. Fiz uma sonata para o tempo, um balé
para as horas, uma ária para cada minuto, uma ópera para a vida. E nesse imenso
salão de brilho e requinte que é o momento que se tem, infinitamente ecoarão os
sons que deixei para todos. E as partituras estarão em cada manhã que se ouça a
música da felicidade, trazida pelo sopro leve da brisa.
Quando mais
adiante - daqui a cem anos ou mais - eu não estiver mais aqui, eis que parti
sem nunca ter ido, minha casa continuará completamente tomada pelos meus mais
de duzentos filhos. O solitário Lucas, a solteirona De Lourdes, o menino rei
Gustavo, o seminarista Tristão, a professorinha Suniá, os meninos Totinha e
Tiquinho, a fofoqueira Custódia, João Pescador, os amigos Yula e Carlinhos,
Dona Doranice, Madame Sofie, a mocinha Soniele e tantos outros. Tantos filhos
que tenho.
Todos os meus
filhos também já nasceram imortais. Estão nos meus romances, são os meus
personagens, são aqueles aos quais dei vida eterna. E porque os livros não
morrem e aqueles que os povoam possuem moradia garantida na eternidade, então
estarei dentro de cada um, falando pelas suas bocas, vivendo nas suas ações,
sendo o que sou por aquilo que criei.
E em nenhum
livro morro ao final, pois o leitor não quer nem a vida permitirá.
(*) Meu nome é Rangel Alves da Costa, nascido no sertão sergipano do São Francisco, no município de Poço Redondo. Sou formado em Direito pela UFS e advogado inscrito na OAB/SE, da qual fui membro da Comissão de Direitos Humanos. Estudei também História na UFS e Jornalismo pela UNIT, cursos que não cheguei a concluir. Sou autor dos seguintes livros: romances em "Ilha das Flores" e "Evangelho Segundo a Solidão"; crônicas em "Crônicas Sertanejas" e "O Livro das Palavras Tristes"; contos em "Três Contos de Avoar" e "A Solidão e a Árvore e outros contos"; poesias em "Todo Inverso", "Poesia Artesã" e "Já Outono"; e ainda de "Estudos Para Cordel - prosa rimada sobre a vida do cordel", "Da Arte da Sobrevivência no Sertão - Palavras do Velho" e "Poço Redondo - Relatos Sobre o Refúgio do Sol". Outros livros já estão prontos para publicação. Escritório do autor: Av. Carlos Burlamaqui, nº 328, Centro, CEP 49010-660, Aracaju/SE.
Poeta e cronista
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