Por Rangel Alves
da Costa*
Pessoas
existem cujas ações as impedem de adormecer tranquilamente e dormir o sono dos
justos, com paz, sossego e tranquilidade. Tudo o atormenta, revira o juízo e o
pensamento, outra coisa não faz senão ficar se remoendo e pensando no fardo de
problemas que tem a resolver. A noite se torna um verdadeiro confessionário e a
insônia um rosário de ervas daninhas que semeou e agora vem colhendo. Sonhar
não lhe cabe, quando muito um pesadelo.
Olha pra cima,
em direção ao telhado ou à cobertura e sente como se tudo estivesse prestes a
desabar. Encobre a cabeça e não tem jeito, pois o que lhe atormenta não quer ir
embora. Vira e revira, desforra a cama todinha, esmaga o travesseiro, mas nada
de encontrar um alento. Na sua cabeça um sino, um martelo, uma palmatória. Quer
chorar, mas pessoas assim dificilmente choram. Sentimentos são próprios dos
justos, dos que sofrem sem ter chamado para si as dores do mundo. Sabe que
levantar não adianta, pois os seus próprios monstros continuam à
espreita. Sair por aí no meio da noite será muito pior. Mas não consegue
dormir. Coisa difícil de ser resolvida. Mas assim quis, semeou ventania e agora
colhe tempestade.
O Velho
Ambrosino falava sobre tudo isso como lição. Poucos lhe davam ouvidos, mas eu o
escutava com atenção; poucos puxavam um proseado mais alongado, mas eu não me
cansava de ouvir suas velhas e sábias lições. Nas suas palavras um livro de
vida, de sabedoria; nos seus conselhos os ensinamentos que não podiam ser
esquecidos. E foi ele quem me falou sobre o sono tranquilo na pedra, sobre o
adormecimento tranquilo ainda que a cabeça estivesse repousada por cima da
pedra dura.
Dizia-me ele
que não há travesseiro macio, de algodão ou pena de ganso, que faça o injusto
ou o desonesto dormir bem. O problema não é com o aconchego, mas com o peso da
consciência e seus terríveis assombros. Verdade que a pessoa deita para
descansar e até procurar, através do adormecimento, aliviar as tensões,
esquecer os problemas, se afastar um pouco dos temores e culpas. Contudo, basta
deitar que o pensamento começa a despertar as feições daquilo que tanto deseja
fugir.
Mesmo que ao
redor tudo pareça esquecido ou ainda esteja sem o devido conhecimento acerca
dos erros praticados ou das condutas desonestas, a consciência nem apaga nem se
faz de deslembrada. Daí que tudo vem à mente para atordoar, para atormentar,
para insistentemente fazer cobranças. As dívidas chegam somando juros e
correção, as contas já vencidas e sem previsão de pagamento chegam aos montões.
E também os ludibriamentos praticados, os interesses escusos, as corrupções, as
ladroices e uma leva de ilicitudes e improbidades.
E mesmo quem é
contumaz no erro ou na ilicitude, quem reincide por prazer no ilegal ou
injusto, não é sentimentalmente tão insensível que faça de conta que nada
acontece e por isso mesmo dorme despreocupadamente. Ledo engano imaginar que os
desonestos da vida não sejam despertados para os seus erros, que não sejam
chamados, ainda que forçadamente, a se mirar diante dos espelhos vitimados
pelos seus atos. A consciência, que nas sombras sopesam as atitudes humanas,
tem o cuidado de não deixar nada esquecido. O reconhecimento do praticado cabe
ao homem, daí seu peso ou leveza na consciência. E daí também seu sono seguro e
reparador ou sua noite de tormentosas trevas.
O Velho
Ambrosino, com o seu palavreado próprio de sertanejo, esmiuçava acerca do tema
e sentenciava: Caminhar pelo bom caminho, ser responsável consigo mesmo e com o
que está ao redor, se não tenha o poder de trazer as bonanças merecidas, também
não traz tanto sofrimento ao indivíduo. Não há nada pior na vida de uma pessoa
que viver perseguida pelos próprios erros, que ter de conviver com culpas e
arrependimentos. E quando a noite cai e o sujeito sequer consegue dormir em
paz, provado estará que nada de bom fez durante o dia. E não só apenas naquele
dia, mas na vivência voltada para ter tudo aquilo que mais tarde lhe consumirá
até na hora sagrada do sono.
E continuava:
Dos mais velhos aprendi que aquele que precisa chegar anda pisando em espinhos
e nada sente. Mas também aprendi que um só espinho consegue entrar na sola do
sapato alheio e sangrar o pé do injusto. Bem assim acontece com o travesseiro
de pedra. Quem guarda paz no coração e não teme cobranças por más atitudes,
caminha pelos espinhos e vai deitar a cabeça na pedra como quem anda na leveza
para adormecer sossegado. E tão tranquilamente dorme que a noite lhe parece uma
dose de rejuvenescimento.
Perguntei se
dormia bem, se deitava e não encontrava problemas para adormecer, logo
respondeu. E afirmou que se demorava a cochilar porque assim desejava. Eis que
ficava olhando para o telhado e avistando uma imensidão de terras que eram
suas, contando rebanhos, caminhando pelo pomar para recolher cestas e mais
cestas de frutas do amanhecer, deitado na rede da varanda e arremessando o
anzol dali mesmo. Então perguntei por que se lançava a tais pensamentos. E ele
respondeu dizendo que acostumara assim porque quando o pensamento na sua
vaquinha magra e no seu casebre chegasse já estava de sono solto.
E por viver
assim, seguro de suas ações, distante dos erros e arrependimentos, é que dormia
profundamente ainda que sobre uma pedra. E feliz, e sonhando...
Poeta e
cronista
blograngel-sertao.blogspot.com
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